A Sorocabana

 

 

Em 1872, estava aberto o duelo entre as Companhias Ferroviárias Ituana e Sorocabana pela conquista do transporte entre a capital e o interior. (CHITTO, 1972)

Naquela época, a Ituana lançou seus trilhos no trecho Capivari-Tiête e a Sorocabana decidiu tomar medidas para que a sua rival não se tornasse mais forte, no avanço dos seus trilhos, para oeste.             O futuro anunciaria claramente a falência da companhia que não lograsse tal êxito. (CHITTO, 1972)

Diante dessa disputa, o engenheiro C. Spetzler, informou a diretoria da Sorocabana, sobre seus estudos e das vantagens de se direcionar os seus trilhos rumo ao sertão. Foi nessa época que a Sorocabana avançou até Boituva, alcançando mais tarde, Botucatu. (CHITTO, 1972)

29 de Agosto de 1898, foi uma data bastante significativa para a história da cidade, pois, foi neste dia em que chegou em Lençóis Paulista, a primeira composição ferroviária da Sorocabana (lastro), que carregava trilhos e madeira para a expansão da linha. (CHITTO, 1972)

Primeiro Trem em Lençóis Paulista – Fonte: Chitto (1972)

Esses trilhos não eram apenas um traço de união da cidade de Lençóis Paulista e região à Capital, mas também se tornou um marco histórico, pois além de escoar a produção de Açúcar, Álcool e Café, possibilitava trazer produtos e ferramentas da Capital ao interior e também criava um meio de comunicação “instantâneo” com a Capital e outras regiões com o moderno Telégrafo que acompanhava as linhas ferroviárias. (CHITTO, 1972; CHITTO,1978)

Naquele ano, em Novembro, o Intendente Major Octaviano Martins Brisola, solicitou a Câmara para que fosse aprovada uma verba de 500$000 para realizar os festejos de inauguração da nova Estação Ferroviária. (CHITTO, 1972)

Estação Lençóis-Sorocabana, recém-construída, por volta de 1930 Fonte: Desconhecida

Com a cidade enfeitada, banda de música e autoridades reunidas, os empresários, fazendeiros e o povo da região, disputavam palmo-à-palmo um lugar na plataforma da Estação à espera de visualizar a chegada oficial da primeira composição ferroviária. (CHITTO, 1972)

29 de Agosto de 1898, para o Estádio Archângelo Brega, foi uma data especial, porque foi por volta desta data que o campo de futebol foi construído, para ser um ponto de lazer para os funcionários da Sorocabana em finais de semana e horários de folga, aproveitando uma área de terra existente na Praça Esportiva Municipal, que já existia neste local desde 1867.

Conforme a ferrovia foi desbravando o interior paulista, o futebol foi sendo difundido por onde ela passava, facilitando à população dessas regiões o acesso (comércio) do material esportivo como livro de regras, chuteiras, uniformes, bolas e redes.

Abaixo segue um dos primeiros itinerários do trem que percorria o ramal Botucatu – Lençóis Paulista, por ele, podemos supor que já nessa época, existia as condições básicas para ocorrerem os jogos entre os times das cidades e vilarejos atendidos pela ferrovia.

 

Horário de Trens – Ramal Botucatu à Lençóes

  • Partem de Botucatu: dias    1, 13 e 25 às 6 horas da manhã.
  • Chega a Lençóes: dias    2, 14 e 26 à 1 hora da tarde.

 

  • Parte de Lençóes: dias    2, 14 e 26 a 1 hora da tarde.
  • Checa a Botucatu: dias    3, 15 e 27 ao meio dia. Fonte: Chitto, 1980

 

Podemos observar que em 1958 o itinerário dos trens no Ramal Botucatu à Bauru, já possuíam uma grande frequência diária.

Guia Levi – Horários do Ramal Bauru – Fonte: Giesbrecht (2019)

Segundo o Guia Levi de 1958, percebe-se que existiam horários propícios ao intercâmbio de pessoas, de modo à ser possível a organização treinos e jogos entre os times das cidades, além de outras atividades, como aulas regulares, passeios e comércio, indícios que se confirmam no relato de Jorge Teles de Ataide feito à Ralph Mennucci Giesbrecht no site Estações Ferroviárias:

Este trem era sempre misto. Quem conta sobre ele é Jorge Teles de Ataide:

Morei muitos anos em Rodrigues Alves, não me lembro as datas exatas, mas acho que de 1955 até 1967, mais ou menos.

Você chegou a conhecer aquelas casas de tábua que existiam do lado de baixo do pátio da estação?

Hoje não existem mais. Elas eram de propriedade do D.E.R. (Departamento de Estradas de Rodagem). Meu pai conservava a estrada de rodagem daquele trecho.

Você conheceu o pessoal que morava lá?

O pessoal do armazém, da farmácia (escrita da porta com ph – pharmacia), a igrejinha, o correio, a fazenda Saltinho. De Rodrigues Alves eu pegava um trem que chamava Mixto (com x mesmo) e ia até Lençóis Paulista onde eu fazia o ginásio e tinha muitos amigos que iam pegando o trem nas estações de Inácio Pupo, Pasto Velho, Paranhos, Alfredo Guedes e chegávamos em Lençóis. É isso aí amigo, tenho muita história para contar, ainda tenho amigos que moram aqui em São Manuel que também eram daquela época.

Esse “mixto” era um trem misto (agora com “s”) porque tinha dois vagões de passageiros, um de primeira classe e outro de segunda classe e tinha mais uns quatro ou cinco vagões de carga.

Os vagões eram todos de madeira. Eu não sei porque esse nome “mixto” talvez algum chefe de estação escreveu com a grafia errada e assim ficou, não sei exatamente o motivo.

Esse trem tinha horário fixo, e nunca era um trem com muitos vagões. (de 5 a 6 no máximo) Existia, um outro trem que chamava-se “BG” não sei o que quer dizer essa sigla, mas viajei muitas vezes nele também. Era um trem muito peculiar. Esse tinha muitos vagões cargueiros e no final tinha um carro passageiro, (um só) sendo a metade de primeira classe e a outra metade de segunda classe, mas a diferença era tão insignificante que considerava segunda classe porque os bancos eram de madeira, e os de primeira tinha um almofadinha, mas era dura como se fosse de madeira também.

Esse trem não tinha horário fixo, porque parava em todas as estações para descarregar carga e fazia manobra para pegar e deixar vagões nas estações.

A sua velocidade era muito pouco, quase parava nas subidas devido a quantidade de vagões de carga que trazia. As vezes, por qualquer motivo, as aulas terminavam mais cedo, eu e outros colegas pegávamos o BG para vir embora.

Esse trem andava tão devagar na subida que nós, alunos, descíamos dele andando apanhávamos goiaba na beira da linha e pegávamos ele de novo na última porta. De Lençóis Paulista a Rodrigues Alves demorava as vezes umas 5 horas ou até mais, enquanto os outros trens faziam esse percurso e 40 minutos até 1 hora. (GIESBRECHT, 2019)